Noventa anos se passaram desde que a primeira mulher assumiu a direção de um filme brasileiro, mas a discussão sobre desigualdade de gênero e raça no mercado da produção audiovisual ainda é surpreendentemente recente.
A ausência de profissionais do sexo feminino por trás das câmeras reflete não apenas o machismo arraigado no mercado de trabalho, mas também a crença persistente por décadas de que as mulheres eram “incapazes” de assumir funções relacionadas a aspectos técnicos.
Apesar dos esforços notáveis de profissionais dedicadas em transformar esse panorama desfavorável, a realidade ainda está longe do ideal. Um levantamento inédito conduzido pela Ancine – Agência Nacional do Cinema revela dados significativos para entender como a disparidade ocorre na prática: Entre as 2.583 obras audiovisuais registradas em 2016, apenas 17% foram dirigidas e 21% roteirizadas por mulheres. Neste artigo, exploraremos os desafios enfrentados por mulheres na produção audiovisual brasileira e examinaremos as iniciativas necessárias para promover uma mudança significativa nesse cenário.

Apesar da representação feminina abranger 40% dos cargos no setor, mulheres ainda enfrentam uma disparidade salarial média de 13% em relação aos homens, conforme apontado por estudo recente. A produtora, diretora e roteirista Amina Jorge destaca que a falta de oportunidades e a remuneração inferior são fatores que desencorajam as mulheres a permanecerem na área, destacando a necessidade de persistência e aceitação de salários mais baixos para se manter na indústria.
“A gente tem que mudar essas relações, a gente tem que mudar essas lógicas. E a lógica é 90% homem e 10% mulher e para mudar a gente tem que […] se propor um desafio de ter uma equipe inteiramente de mulher, propor o desafio de ter uma maquinista mulher, funções que historicamente não eram ocupadas por mulheres”. – Amina Jorge
Aspectos como esses levantados por Jorge, também se refletem nas escolhas de carreira: a participação de mulheres é maior na direção de arte (58%) e produção executiva (41%), funções socialmente associadas ao gênero feminino. Em contraste, a direção de fotografia permanece como um dos nichos com maior disparidade, registrando apenas 8% de participação feminina, conforme evidenciado nos dados de CPBs emitidos pela Ancine em 2015 e 2016.
A ausência de representatividade das mulheres na indústria cinematográfica não se limita apenas às telas, mas se estende também aos júris de editais, festivais e premiações. Dos vinte e dois projetos de filmes brasileiros selecionados pelo BNDES para receber subsídios financeiros, apenas quatro eram dirigidos por mulheres, resultando em uma disparidade de R$10 milhões em comparação com os valores destinados a projetos liderados por homens.
Para abordar essas diferenças de investimento e fomentar a produção de obras audiovisuais de autoria feminina, a ANCINE (Agência Nacional do Cinema) iniciou a implementação de ações de paridade de gênero em suas comissões. Em 2018, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) reservou R$100 milhões para projetos de longas-metragens independentes de ficção, documentário ou animação liderados por mulheres, negras e indígenas. O objetivo é promover a diversidade na produção audiovisual nacional, estipulando que pelo menos 35% dos valores investidos nos projetos selecionados devem ser direcionados a mulheres ou mulheres transexuais/travestis. Essas medidas representam um importante passo em direção à construção de uma indústria audiovisual mais inclusiva e representativa no Brasil.
Projeto Mulheres no Audiovisual – Pacajus – CE (Imagem: Divulgação/Numen Produtora)
Diversas iniciativas têm surgido com o propósito de criar espaços necessários para as mulheres, gerar visibilidade e promover a diversidade de vozes. Conheça algumas delas:
– Mulheres Audiovisual: Esta plataforma tem como objetivo principal dar visibilidade às produções contemporâneas de mulheres, além de funcionar como um instrumento de divulgação, registro histórico e memória. A iniciativa visa construir novas narrativas sobre o papel das mulheres na cultura cinematográfica e audiovisual brasileira.
– Coletivo Vermelha: Criado por diretoras e roteiristas, o Coletivo Vermelha propõe uma reflexão crítica sobre a condição feminina e as relações de gênero na indústria audiovisual. A intenção é empoderar, dar visibilidade e promover um ambiente de cooperação entre as mulheres que atuam nesse campo.
– Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro: Desenvolvido para dar visibilidade aos projetos de mulheres negras no campo audiovisual, ampliando suas redes de contatos e parcerias, o site oferece uma plataforma para buscar profissionais que atuam em diversas áreas, como fotografia, direção de arte, edição, som, entre outras, em diferentes estados do país.
Ao impulsionar a visibilidade de mulheres no audiovisual, estas iniciativas não só desafiam estereótipos persistentes, mas também contribuem para a edificação de um cenário cinematográfico brasileiro que celebra a multiplicidade de experiências, narrativas e talentos. Portanto, ao persistir nessas iniciativas, estamos não apenas transformando o mercado audiovisual, mas também moldando um futuro onde a igualdade é a norma e a representatividade é a chave para um setor cultural vibrante e inclusivo.
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